Páginas na Internet sobre deficiências e o usuário com deficiência

Autor: Romeu Kazumi Sassaki, 1998.

Amadores ou profissionais que elaboram informações para as páginas (home pages ou sites) na Internet, a serviço ou não de entidades ligadas à questão da deficiência, têm diante de si um duplo desafio.

O primeiro desafio é, evidentemente, o de buscar, coletar, classificar e formatar as informações textuais e ilustrativas relativas à questão da deficiência de uma forma que elas sejam úteis aos objetivos e interesses de seus usuários.

O segundo desafio, não menos importante, consiste em dar um certo tratamento técnico a essas informações de tal forma que elas possam ser facilmente acessadas e copiadas por pessoas que têm considerável dificuldade motora ou mental para lidar com o computador e seus acessórios. E também de tal forma que o acessamento às informações não demande esforços físicos ou danos emocionais.

Assim, as pessoas que fornecem material escrito e ilustrado para ser inserido nas home pages, bem como as pessoas que efetivamente criam essas páginas, deverão estar conscientes das necessidades especiais dos usuários portadores de deficiência física, mental, auditiva, visual, múltipla ou psiquiátrica.

Este cuidado técnico em produzir sites cujo acesso não acarrete problemas é, nos dias de hoje, um imperativo ditado pela filosofia da inclusão social, pelo movimento dos portadores de deficiência e pelas principais organizações mundiais referentes aos assuntos da deficiência.

A filosofia da inclusão social basicamente defende a meta de se criar uma sociedade capaz de acolher todas as pessoas, independentemente das diferenças e necessidades individuais, e para isso preconiza soluções aos problemas existentes nos ambientes humano e arquitetônico, soluções essas que propiciem iguais oportunidades de acesso às informações e ao meio físico.

O movimento dos portadores de deficiência defendem seus direitos à informação, ao trabalho, à educação, à saúde, à família, ao lazer, aos esportes etc. em termos de igualdade com a maioria da população.

E as principais organizações mundiais, como a Disabled Peoples' International, a Rehabilitation International, a Organização das Nações Unidas e suas Agências Especializadas entre outras, defendem esses mesmos direitos e princípios, primordialmente por intermédio de seus projetos de desenvolvimento de recursos humanos e de cooperação técnica a governos e instituições privadas.

O tratamento técnico recomendado à elaboração de home pages beneficia não apenas as pessoas com deficiência que as visitarem, como também qualquer outro usuário ¾  fato que constitui uma abordagem inclusiva.
 
Aspectos como a linguagem do dia-a-dia, o estilo simples de redação, as sentenças curtas, os parágrafos curtos e os subtítulos abrangendo poucos parágrafos são exemplos de cuidados no tratamento da informação que facilitam a vida das pessoas deficientes e, ao mesmo tempo, agradam a todas as pessoas.

Outros exemplos são os seguintes:

1) Deverá haver no máximo três níveis de links, no caso de ser necessário criar hipertextos, ligados através de links.  Quem já acessou a WWW (World Wide Web), conhece o trabalho e a confusão que muitas vezes teve de enfrentar ao abrir uma página cheia de links. De um link que ele clicou, o usuário é conduzido a uma nova página que também tem vários links. Daí ele clica um desses links e é levado a uma terceira página, que por sua vez tem uma porção de links. Depois de algum tempo, o usuário já não sabe em que página ele começou e por quais páginas navegou levado pela série de links. Sem contar que o internauta pode ter salvado alguns textos no percurso, o que provavelmente tomou bastante tempo dele além de deixá-lo ainda mais perdido.

2) As páginas não devem ser nem muito curtas e nem muito compridas. A estrutura hierárquica dos textos em HTML (Hyper Text Mark-up Language) é um problema no sentido de que geralmente as pessoas estão acostumadas a ler um texto após o outro. E geralmente elas imprimem certos textos para lê-los mais tarde. Porém, os textos muito longos tomam muito tempo para aparecer totalmente na tela e ocupam muito espaço da memória ao serem salvados. Por outro lado, os textos muito curtos são frustrantes.

3) Os caracteres devem ter um tamanho fácil de ser lido. Pessoas que têm baixa visão e pessoas que têm coordenação manual precária têm dificuldade para clicar o mouse sobre os caracteres que têm tamanho muito reduzido (por exemplo, abaixo de 12 ou 10). O tamanho ideal é 16 ou 18, segundo a organização de pessoas com deficiência DAA - Disability Awareness in Action, em sua publicação "Idéias Práticas em Apoio ao Dia Internacional das Pessoas com Deficiência: 3 de Dezembro" (editada pelo PRODEF- Programa de Atendimento aos Portadores de Deficiência em parceria com a APADE - Associação de Pais e Amigos de Portadores de Deficiência da Eletropaulo, São Paulo: 1996, p.17).

4) O fundo do texto deve ter uma cor leve e a cor do texto deve ser compatível com a do fundo para que os caracteres fiquem bem realçados.  A cor do fundo poderá, de preferência, ter uma tonalidade pastel e ser a única. Muitas cores misturadas causam dificuldade de leitura.

5) É recomendável a criação de páginas só com texto. As figuras e os desenhos tornam as páginas mais difíceis de serem lidas. E carregar (chamar ou copiar) gráficos e outras ilustrações gastam bastante tempo e ocupam muito espaço de memória.

6) Textos seguidos podem parecer desajeitados, mas são mais fáceis para ler.  Algumas pessoas com dificuldade manual preferem pressionar as teclas de setas (para cima, baixo, esquerda e direita) do que clicar o mouse.  Neste caso, os links se tornam um problema para estas pessoas.

 No quadro abaixo, podemos visualizar o quanto estes detalhes ou aspectos afetam negativamente pessoas com deficiência.

Aspectos Negativos Tipos de dEficiência
Física Mental Auditiva Visual Múltipla Psiquiátrica
Caracteres de tamanho abaixo de 12
Fundo escuro e caracteres pequenos
Caracteres de cor muito clara e difusa
Linguagem rebuscada, jurídica
Imagem (texto e fundo) tremeluzente
Muitos links em várias páginas
Muitas cores em movimento
Textos muito longos


Seguem-se comentários adicionais sobre algumas necessidades especiais de pessoas com deficiência.

Na deficiência física:
Para estas pessoas é mais fácil lidar com um texto comprido do que com vários textos através de links. Mas a página não deve ser muito longa porque ela toma muito tempo e memória para ser copiada. Algumas destas pessoas utilizam aparelhos ou dispositivos assistivos para operarem seu computador.

Na deficiência mental:
O estilo da linguagem utilizada deve ser muito simples. Deve ser evitado ao máximo o emprego de palavras e expressões em língua estrangeira.

Na deficiência auditiva:
Recomenda-se linguagem clara, usando conceitos que possam ser expressos em língua de sinais. Devem ser utilizados termos simples no lugar de termos jurídicos.

Na deficiência visual (baixa visão):
São aspectos importantes para pessoas com baixa visão o tamanho dos caracteres e o contraste entre o texto e o fundo. Textos e figuras tremeluzentes, assim como a mistura de muitas cores, causam grande dificuldade para a leitura. O fundo deve ser de cor clara, única.  Os caracteres devem ter cor escura e nítida.  Já as pessoas cegas não são afetadas por este aspecto, já que elas não enxergam e utilizam dispositivos assistivos conectados ao computador para navegar pela Internet.

Na epilepsia:
Páginas tremeluzentes podem contribuir para desencadear um ataque epilético. Devem ser evitados textos e figuras lampejantes.

Na psiquiatria (saúde mental):
A linguagem deverá ser simples, as sentenças deverão ser curtas e a estrutura do texto deverá ser direta (tipo "começo-meio-fim").

Concluindo, apresento algumas das home pages ligadas à questão da deficiência, para que os usuários dessas páginas possam analisar os aspectos abordados no presente texto.
 

Alguns dos sites produzidos no Brasil:

DEFNET - Centro de Informática e Informações sobre Paralisias Cerebrais - Banco de Dados http://www.defnet.org.br/
Somos Diferentes http://www.aleph.com.br/diferent
APABB - Associação de Pais e Amigos de Pessoas Portadoras de Deficiências dos Funcionários do Banco do Brasil http://www.apabb.com.br
CEDIPOD - Centro de Documentação e Informação do Portador de Deficiência http://www.mbonline.com.br/cedipod
CVI-RJ - Centro de Vida Independente do Rio de Janeiro http://www.ibase.org.br/~cvirj
Página de Ronaldo Corrêa Jr., portador de paralisia cerebral http://www.truenet.com.br/ronaldo
INFOSERVE-DEF - Produtos e Serviços para Pessoas Portadoras de Deficiência na Internet http://www.aibr.com/infoserve
UPDOWN - Associação de Pais de Filhos com Síndrome de Down http://www.zum.com.br/comunidade/updown
Fábio Becker é autor da primeira página feita por um deficiente físico no Brasil http://www.geocities.com/SunsetStrip/1973

 

Alguns dos sites produzidos no Exterior:

Informações sobre a ADA - Americans with Disabilities Act (Lei dos Americanos com Deficiência) http://www.public.iastate.edu:80/~sbil ling/ada.html
Leis que regulamentam a ADA (Lei dos Americanos com Deficiência) http://www.law.vill.edu/legis/ada/arg-toc.htm
A Inclusion Press International mantém esta página sobre  o processo da inclusão social http://www.inclusion.com
Apresenta o The Archimedes Project, destinado a melhorar o acesso de pessoas deficientes à informação e à tecnologia assistiva http://www.kanpai.stanford.edu/arch/arch.html
Página de Kevin Wright, coordenador regional para a ADA, da Universidade de Tennessee. http://www.loki.ur.utk.edu/alumnus /spring94/wright.html
Jim Lubin apresenta mais de 40 links para recursos existentes na Internet sobre deficiências http://www.eskimo.com/~jlubin/disabled.html
Kevin Cole, com o Center for Assessment and  Demographic Studies, apresenta recursos eletrônicos para pessoas com deficiência outra que não a surdez. http://www.gallaudet.edu/~cadsweb/disabi lity.html
Esta página apresenta diversos links para assuntos de deficiência Ä Access Media, Independent Living, Inc., Action for Blind People, Deafness Resources Australia entre outros. http://www.galaxy.einet.net/GJ/disabiliti es.html


Referências:

  • National Research and Development Centre for Welfare and Health - STAKES. Helsinque, 1997.
  • POWELL, B. e WICKRE, K. Atlas to the World Wide Web. Emeryville: Ziff-Davis Press, 1995, 220 p.
  • Maria Ercília. "Computador liberta potencial de deficientes físicos". Folha de S. Paulo, 21 maio 1997, p. 8-4 (netvox@uol.com.br).

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