III CONGRESSO IBEROAMERICANO DE INFORMÁTICA E EDUCAÇÃO ESPECIAL - CIIEE
Painel: REDES DE INFORMAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO ESPECIAL
FORTALEZA – AGOSTO DE 2002

Autor: Jorge Márcio Pereira de Andrade
Instituição: DEFNET Centro de Informática e Informações sobre Paralisias Cerebrais
Rio de Janeiro – RJ

 

Resumo:

A sociedade contemporânea, chamada de Sociedade da Informação, na qual pode-se estar incluídos/excluídos, principalmente pelos rápidos avanços tecnológicos, principalmente no campo da informação e da comunicação de massa, vem criando e potencializando redes informatizadas. Estas redes podem estar a serviço das pessoas com deficiência, e, em especial, no campo da educação, onde seu potencial de comunicação pode transpor algumas barreiras impostas aos cidadãos socialmente segregados.

O novo tempo das redes fora do tempo cronológico revoluciona nossas vidas e nossos coletivos sociais, que se tornam verdadeiras comunidades virtuais, onde circulam desde relações interpessoais até os grandes dilemas universais ou planetários, constituindo um novo imaginário social e coletivo.

Este é um novo campo de experimentação e de análise para os que se preocupam com o futuro, principalmente com os usos éticos e responsáveis das novas tecnologias.

Palavras-chaves: Redes de Informação, Educação Especial, Novas Tecnologias, Redes Telemáticas, Inclusão Digital, Exclusão Digital, Pessoas com Deficiências.

 

INTRODUÇÃO:

Uma das concepções mais atuais de rede, além das redes de televisão, é a da rede computadores interconectados, a chamada Internet, que constituiria uma trama de comunicações interplanetárias em escala jamais alcançada pela humanidade. Pode-se dizer que atualmente vive-se um sistema de virtualidade real construída a partir de um sistema de mídia onipresente, com interligações em tempo real, com a participação de todos os tipos de informação.

Partindo de uma concepção de redes de informação e telemáticas, como um sistema rizomático 1 de interpenetração de informações, reunindo pessoas com deficiências e sem deficiências, pode-se propor algumas considerações sobre as possibilidades de futuro para as redes de comunicação, via Internet e outras mídias. Temos a urgente tarefa da construção de uma sociedade onde haja o respeito à diferenças e às diversidades, com equiparação de direitos e oportunidades, a construção coletiva da Sociedade com Inclusão Social e eliminação de todas as formas de exclusão e segregação.

Pode-se, então, apostar em uma possibilidade de construção de redes de cidadania ativa, e, em especial, de redes de defesa de direitos das pessoas com deficiências e necessidades especiais, como um dos caminhos afirmativos e políticos da construção deste mundo melhor e menos desigual. Neste movimento as redes são imprescindíveis.

As redes construídas, socialmente, pelos cidadãos e cidadãs, por exemplo, que são afetados pela exclusão digital, podem ser um paradigma de mudança, e tomadas como uma ação educativa para a implantação do processo de inclusão escolar e social. Este processo começa com as escolas, virtuais ou não, à distância ou presenciais, envolvendo os educadores, os educandos com e sem deficiências, assim como a comunidade e família para construir, juntos, os alicerces para os múltiplos caminhos que levam a movimentos sociais afirmativos. Estes movimentos se tornam, por sua vez, geradores de novas redes, dentro e fora do ciberespaço, que irão se expandir em novas redes que se multipliquem livre e infinitamente. Confirmando o desejo de que se tornem multiplicadoras e rizomáticas.

As novas tecnologias da comunicação e da informação (TIC) tem um fundamental papel na atual configuração da globalização e do mundo de capitalismo integrado em que vivemos. Estas são o alicerce para a confirmação moderna do papel das redes. A nova sociedade já foi definida como uma "Sociedade em Rede", assim nomeadas por Castells:

"Redes constituem a nova morfologia social de nossas sociedades, e a difusão da lógica de redes modificade forma substancial a operação e os resultados dos processos produtivos e da experiência , poder e cultura. Embora a forma de organização social em redes tenha existido em outros tempos e espaços, o novo paradigma da tecnologia da informação fornece a base material para sua expansão penetrante em toda estrutura social." 2

Portanto, como afirma o autor, estas redes não são um "invenção" da modernidade, mas uma necessidade que atravessa os tempos e a história das sociedades. Porém, somente após os anos 50, com a novas técnicas de comunicação de massa, em especial com o advento da televisão, é que tanto os homens de ciência como os usuários das redes passaram a discutir e avaliar os usos ideológicos e políticos sociais destas.

Já afirmamos anteriormente que: " vivemos sob o signo moderno da velocidade, e as inovações tecnológicas, pela sua atual rapidez de criação substituível, descartável e renovável, são para muitos algo de ‘assustador’ ou gerador de ‘temor’, e não raro ouvimos falar em "tecnofobia", e para alguns em excessiva "tecnofilia". As tecnologias novas ou antigas não devem ser tratadas como o advento do apocalipse da humanidade. Elas podem ser transformadas em uma busca consciente da criação de aberturas para o futuro, como sonhos a serem realizados coletivamente, possíveis utopias criativas".3

As redes, dentro de uma visão atual, podem surgir como espaços virtuais, que são nosso principal interesse, com redes telemáticas, ou redes concretas que estão mais para os supermercados e os modos de produção industrial de nossos tempos. Quando ligadas a movimentos sociais, a exemplo dos movimentos de defesa dos direitos das pessoas com deficiências, tornam-se , segundo Scherer-Warren: "redes multiorganizativas, resultantes de vínculos e militâncias múltiplas enraizadas em comunidades locais, cuja capacidade organizativa tanto dependerá das possibilidades de mobilizar recursos, aproveitar oportunidades políticas, exercer influências, como de construir identidades culturais e políticas" 4

Deve-se propor que estes processos de articulação de redes possa ser ampliado com a introdução de uma concepção menos "enraizada" para os atores sociais de sua constituição e gênese social. Acreditamos que uma introdução de não-centralidade organizacional e não-hierarquização de poder para as redes, por exemplo entre as organizações e entidades representativas de pessoas com deficiências, com um intercâmbio livre de informações e conhecimentos, poderá facilitar o surgimento de um movimento mais libertário e criativo no uso das novas tecnologias de informação e comunicação (TICs), abrindo a possibilidade de sua socialização e universalização para combater a chamada Exclusão Digital.

Há, portanto, uma nova configuração para o que chamaremos de "redes nascentes", com todo seu potencial instituinte e analisador, com uma proposta mais "rizomática"5 de difusão de dados e de articulação na Internet, entre seus participantes, passivos ou ativos, onde as informações e os conhecimentos, em formato de hipertexto pudessem ser compreendidos a partir de qualquer ponto nodal (nó) de uma rede em trama rizomática. Pois conforme o pensamento de Guattari e Deleuze, nos afirma Franco:

" Internet é um fluxo multimídia incessante, cujas principais características são a mutação e a multiplicidade. Um não-lugar que se apresenta continuamente nas telas dos computadores. Através da Internet emergem novas formas de expressão... Sendo uma rede, a Internet está em consonância com um pensamento rizomático que rompe com a linearidade da escrita, ao mesmo tempo que é a interface entre a inteligência viva e a máquina. A Internet é o elo que interliga aqueles que vão pensar em rede e com a rede..." 6

Esta percepção e compreensão dos usuários e criadores, assim como possíveis gestores das mídias digitais, nos coloca uma questão de articular a subjetividade, sua produção no mundo do Capitalismo Integrado (chamado de globalizado econômica e politicamente), com o conhecimento, através das ciências e das práticas político-multiculturais.

Há implicado neste conceber o novo mundo utópico proposto, das ecologias humanas, também uma nova "ética" entre os atores sociais, que devem ser situados historicamente no momento atual, tempos de encruzilhadas, ciladas e labirintos, alguns deles criados pelas utilizações excludentes das novas tecnologias. As redes se tornam, então, um modelo de coletivização em que os seus atores participantes têm tanto verticalidade como horizontalidade em suas relações de poder, estando abertos ao pluralismo de idéias, às diferenças étnicas e culturais, às questões de gênero e condição humana, bem como, ao que é muita vezes é negado, às pessoas com deficiências, o direito de pertencer e participar de todas as atividades sociais. Entra em cena a Inclusão/Exclusão Social.

A proliferação de novos caminhos para a expressão da cidadania de pessoas com deficiências e necessidades especiais já conquistou seu espaço na Internet brasileira. Há, porém que indicar, para questionamento, o crescimento de atividades em sistema de redes dento de uma perspectiva interacionista. Temos um crescimento de novos sites e de elos de comunicação entre sites dedicados sobre, para e das próprias pessoas com deficiências, porém estes ainda estão, na sua maioria em campos restritos de áreas dedicadas a um tipo específico de deficiência. Assim sua presença num universo vertiginoso, em permanente expansão, que é a Internet, passa pela mesma questão dos outros tipos de sites e redes de comunicação via Internet: a sua permanência, duração e aprimoramento no ciberespaço.

 

AS REDES EM MULTIPLICAÇÃO

As tecnologias não são nem más, nem boas, assim como nem sempre o processo de incluir não deixa de excluir. Quase sempre há que pensar e rever nossos preconceitos ao criarmos alguns conceitos. Em se tratando das redes precisamos pensá-las como oriundas primariamente de um desejo humano de expansão e multiplicação.

Podemos colocar, para fins apenas de questionamento e indagação, que teríamos, dentro de uma visão institucionalista a gênese destas redes, no chamado mundo globalizado, como sendo oriundas de um cenário político-econômico.

Há uma gênese social e outra teórica para os movimentos coletivos que se transformam em rede, principalmente as redes que se institucionalizam no novo campo do Terceiro Setor, das Organizações Não- Governamentais.

Segundo Scherer-Warren7, as organizações não-governamentais (Ongs) tem três principais campos de atuação: a filantropia, o desenvolvimento, e a cidadania. Esta autora nos elucida, aos estudar os movimentos sociais, que as Ongs vem saindo de uma postura de assistencialismos rumo à solidariedade, quando se substituem as ações filantrópicas e caritativas pelos novos modelos de empreendimento e organização dentro do Terceiro Setor, construindo-se ações sociais de defesa dos direitos dos marginalizados e excluídos, não permanecendo em uma prática meramente emergencial, muito embora, no Brasil, para o campo das entidades de assistência privada das pessoas com deficiências este percurso ainda esteja longe de se completar.

Atualmente há um campo de atuação das organizações e entidades ligadas às pessoas com deficiências, bem como às pessoas sem deficiências, que vêm apresentando resultados ativos no uso das redes: a educação. O campo educacional é um dos mais desenvolvidos como ação social pelo Terceiro Setor em nosso país, visto que considera-se este um terreno fértil para o crescimento de novos conhecimentos sobre os usos éticos das chamadas tecnologias educacionais. As experiências de aliança entre educação, educadores e a Internet está alicerçando novos campos de saber e de práticas pedagógicas. A estas novas formas de exercício do ensino-aprendizagem as mídias, a cada dia mais, tem assumido um papel relevante, onde desde os jornais até o rádio, passando pela televisão, todos impregnados pela ondas da Internet, se tornam ferramentas de multiplicar a educação. Neste campo também se multiplicam, geométrica ou rizomáticamente, as redes.

Pode se dizer que as redes podem e devem estar conectadas em um processo de movimento social emergente, e, em uma sociedade da complexidade de nossos tempos, passam a funcionar como redes submersas, não visíveis, embora atuantes e multiplicadoras. È neste tipo de ação molecular que precisamos apostar, numa silenciosa revolução molecular que estas redes podem realizar para que exista o chamado desenvolvimento auto-sustentável, e, principalmente, o surgimento de uma consciência de cidadania planetária. Um novo conceito de ser cidadão do mundo, onde ser global é tão importante como ser local, comunitário, participativo e crítico dos usos de todas as tecnologias.

Para o autor as redes, na compreensão de sua possibilidade de gerar multiplicadores sociais, podem ser classificadas em:

  1. redes construídas
  2. redes em construção
  3. redes insurgentes.

As redes construídas podem ser entendidas como as redes que se materializam pela sua realidade técnica, nestas incluem-se as que usam as mídias (rádio, televisão, imprensa, Internet) para manter em ação interativa seus atores, estando sempre ligadas a uma forma hegemônica de distribuição das informações. Chamaremos de "redes em construção", as tramas multiplicadoras de informação, que se fundam a partir de um movimento social, local ou global, ligado a uma ‘causa’ ou ‘questão’, mantendo-se em permanente estado de desterritorialização, portanto necessitando de uma reconstrução contínua de suas bases e de seus atores-participantes. Quanto às chamadas "redes insurgentes", à semelhança dos movimentos sociais instituintes, por seu caráter político e extemporâneo, há um desejo ativo de mudança dos paradigmas informacionais, bem como uma ruptura que fragmenta e modifica os modos de transmissão da informação, porém, por ser, considerada subvertedora da ordem estabelecida, a exemplo das "rádios livres", passam a ser alvo de um movimento de captura pelas forças hegemônicas instituídas, onde se propõe a sua "oficialização" e, conseqüentemente, sua possibilidade de estagnação da força desestabilizadora, caindo, a maioria das vezes, num modelo de rede construída.

Considera-se a Internet como um modelo de rede, além de sua concretude como rede técnica de computadores espalhados por todo planeta, que aspira se tornar uma ‘rede insurgente’. Porém o que estamos assistindo/navegando é a sua possível naturalização como uma rede oficial, à mercê dos novos colonizadores do campo das informações globalizadas.

A Internet é hoje reconhecida como a ‘rede das redes’ por sua extensão, crescimento, hiperconexões e multiplicidade de pontos nodais, características importantes para o funcionamento de um modelo de redes virtuais, sendo criado ao Ciberespaço8. Neste novo território das virtualidades surge também um novo conceito de cidadania, o cibernautas ou cidadãos cibernéticos, ou mais resumidamente os net-zen (contração das palavras citizen e internet). Abre-se aqui um novo conceito de inclusão/exclusão. A Internet, embora uma ferramenta de crescimento e expansão social maior que todas as outras mídias modernas, ainda é um recurso tecnológico que, por necessitar, por exemplo, de linhas telefônicas, excluem da revolução digital a maior parte dos habitantes da Terra. Segundo dados apenas 5 a 6% de toda a população mundial está ‘conectada’ a World Wide Web (www), nossa grande teia hipermídia de comunicações globalizada e, infelizmente, ainda excludente. Temos, portanto, reproduzidas a novas classes sociais de cidadãos: os "on-line" e os "off-line".

 

REDES DE INFORMAÇÃO, INCLUSÃO DIGITAL E PESSOAS COM DEFICIÊNCIAS

Para combater o que se chamou inicialmente de Digital Divide, que denominamos em português de ‘segregação ou brecha digital’, é que diversos países, inclusive o Brasil, estão procurando formas de socializar e democratizar as ferramentas ligadas à informática e as novas tecnologias da comunicação e informação. No caso específico da Internet já temos o programa estabelecido dentro do chamado Livro Verde para a Sociedade da Informação no Brasil (www.socinfo.org.br/livro_verde.htm). Este documento é uma iniciativa governamental, leia-se Ministério da Ciência e Tecnologia, para produzir um documento norteador do futuro da implantação e uso das tecnologias digitais no Brasil.

Em maio de 2001 realizou-se a primeira Oficina para a Inclusão Digital, em Brasília, DF, no Centro de Convenções Ulisses Guimarães. Este encontro foi promovido pela Secretaria de Comunicação do Governo da Presidência da República e da Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação do Ministério do Planejamento, contando com o apoio de Organizações Não-Governamentais (Ongs), como a Sampa.org, Comitê para a Democratização da Informática (CDI), Rede de Informações para o Terceiro Setor (RITS), e muitas outras, além do governo do Distrito Federal e de algumas empresas do ramo da informática. O evento tinha como fundamento a discussão da Inclusão Digital e as políticas públicas que deveriam ser implementadas com os recursos oriundos do Fundo de Universalização das Telecomunicações (FUST). Estiveram presentes também representantes de entidades, tanto governamentais ( SEESP/MEC, Instituto Nacional de Educação de Surdos, por exemplo), como de Ongs, como a Federação Nacional das APAEs, incluindo-se nossa associação, o DEFNET, Centro de Informática e Informações sobre Paralisias Cerebrais.

Tendo como principal premissa geral que: " a exclusão digital aprofunda a exclusão sócio-econômica", foram elaboradas algumas diretrizes e propostas, sendo algumas diretamente ligadas às pessoas com deficiências, tanto no que diz respeito a sua inclusão digital, como no campo da área dos equipamentos especiais e acessibilidade, afirmando nas premissas que:

"119. A inclusão digital, em função das possibilidades que oferece às pessoas portadoras de deficiência, tem um importância maior para essas pessoas do que para as demais.

120. O acesso deve ser compreendido não apenas como acesso à rede de informações,mas também como eliminação de barreiras arquitetônicas, de comunicação e de acesso físico, equipamentos e programas adequados, bem como conteúdo e apresentação da informação em formatos alternativos.

121. Todas as normas técnicas e documentos regulamentadores na área de criação e desenvolvimento de equipamentos e programas, sejam eles específicos ou não às pessoas portadoras de deficiências, deverão contar com a participação de representantes de usuários das diversas áreas de deficiência. O acesso físico dessas pessoas deverá ser garantido pelo órgão regulamentador"10 .

Ficam claras nestas premissas as questões da heterogeneidade das diversas formas de deficiências, suas singularidades e a necessidade de uma ação especifica para cada uma, assim como uma reafirmação de urgentes ações afirmativas dirigidas a estes cidadãos. Interessa, em especial, ainda, a afirmação de que o ‘ acesso ‘ não deve se restringir apenas às redes de informação, bem como a imprescindível alternativa dos conteúdos e da apresentação das informações, posto que estas deveriam ser de livre acesso para todos. Mas a mais importante afirmação é a da necessidade de participação ativa das próprias pessoas com deficiências no processo de estabelecimento de normas técnicas e documentos, cabendo ainda uma ressalva para que estes cidadãos também possam vir a ocupar os campos de atuação para a implementação destas normas.

Portanto, temos ao menos, proposições para a participação ativa das pessoas com deficiências, que cada vez mais estão alinhavando suas parcerias e suas articulações para um efetiva participação social e política. Porém estas iniciativas, de mérito e resultado de muitas lutas, ainda estão restritas ao campo de atuação associativo, um campo que ainda está se descolando das ações caritativas e filantrópicas, além de ser um campo de atuação privado e civil, que só muito recentemente está podendo aprimorar-se como parte do chamado Terceiro Setor, com parcerias empresariais e estatais.

É no campo das iniciativas do Terceiro Setor, com os movimentos sociais ligados às Organizações não-governamentais, com já nos referimos anteriormente, que houve um crescimento das ações em direção à cidadania e o respeito aos Direitos Humanos, tanto de cidadãos com deficiência como sem deficiências. Neste campo de atuação tem se destacado algumas iniciativas ligadas ao uso de novas tecnologias com a finalidade de criação de redes de informação, tomando a informação não como conhecimento mas como um dos principais meios de acessá-lo, distribuí-lo e tornar o conhecimento o mais socializado possível11.

Nesta direção é que se criam, no combate à pobreza do conhecimento, redes como a Cidade do Conhecimento, criada pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, SP, com a finalidade ser uma rede de comunicação entre o mundo escolar e o mundo do trabalho. Criando redes nas quais ocorreria a produção compartilhada e cooperativa de conhecimento entre esses dois mundos, sua missão é melhorar e ampliar as oportunidades de emprego no país por meio de tecnologias de informação e comunicação. Além disso a Cidade do Conhecimento passa a ser ela própria um campo de pesquisa sobre o uso social das redes12.

Mas esta cidade virtual é apenas um passo e um projeto para ajudar a combater a exclusão digital. Há ainda que trabalhar para a universalização de todas as tecnologias, para todos os segmentos e classes sociais no Brasil. Somos ainda, segundo o Censo Escolar de 2000, um país onde somente 9% das escolas do ensino fundamental têm um laboratório de informática e apenas 6,7 % destas acessam a Internet.

 

EDUCAÇÃO ESPECIAL E SUAS REDES

Para o campo específico da atuação de novas tecnologias na Educação Especial também vem crescendo as iniciativas de criação de redes. Há iniciativas pioneiras de investigação científica, ligadas a universidades públicas, como o Núcleo de Informática na Educação Especial (NIEE), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que foi e é um dos primeiros a aplicar novas tecnologias, em experimentação laboratorial, criando redes telemáticas para pessoas com deficiências, com demonstração de resultados através de seu site na Internet13. Este centro de pesquisas vem realizando também atividades de pesquisa na produção de softwares educacionais, dentro de uma visão lúdica, visando o desenvolvimento cognitivo e sócio-afetivo. Mas sua principal articulação com nosso tema está na inserção dentro da Rede Iberoamericana de Informática na Educação, num projeto de cooperação científica que reúne 21 países em sistema de rede para pesquisa, formação de recursos humanos e produção de softwares e hardware. Este modelo de cooperação também já atinge outras universidades públicas brasileiras, onde novas redes de trocas entre pesquisadores, inclusive com a participação direta de pessoas com deficiências, estão em busca de estratégias para aprimorar o ensino-aprendizagem, bem como na pesquisa de meios facilitadores e de acessibilidade com tecnologias Assistivas ou auxiliares, todas voltadas para o processo de inclusão social e escolar de pessoas com deficiências.

Espera-se que o entrecruzamento das redes, tanto construídas como em construção, bem como com redes insurgentes, no campo da Educação Especial, possa continuar insistindo no processo de remoção das barreiras, de toda ordem ou tipo, que se colocam no caminho da inclusão de pessoas com deficiências na sociedade. Há porém que lembrar que num país onde 80,9 % das residências brasileiras ainda não possuem um computador, assim como, nas escolas brasileiras ainda estamos longe de uma real presença de novas tecnologias nas salas de aula, a começar pelo computador, ainda caminhamos lentamente para a urgente Inclusão Digital.

Para a superação dos abismos entre os que podem estar conectados ao mundo digital, por exemplo através da Internet, os 5 a 6 % de brasileiros, e os ‘sem-computador’, onde se situam uma parcela considerável das pessoas com deficiências, é que se está tentando criar redes e implantando experiências-piloto nas escolas, tanto as especiais como as regulares, assim como nas comunidades com os telecentros.

Portanto, no espaço privilegiado para a educação, potencialmente transformador de mentalidades, é que novas redes de informação estariam voltando sua práticas sociais, lembrando, como nos diz Carvalho:

"O impacto das novas tecnologias sobre nosso dia-a-dia exige comunhão entre o poder da técnica e a consciência da importância social, política, além de pedagógica, de nossas escolas, para evitarmos que a racionalidade técnica prepondere, desumanizando a escola, transformando-a em espaço de decisões tecnicistas."14

Neste sentido, para combater o império das técnicas, é que necessitamos de um processo de capacitação e aprimoramento dos educadores, que, na sua posição modificada de um participante de um processo de ensino-aprendizagem, deixam ser meros instrutores ou gerenciadores do conhecimento. Num tempo em que estas redes, construídas telematicamente, não mais distinguem, no processo de comunicação, os educandos com ou sem necessidades educativas especiais, os educadores se vêm afetados por essas novas coordenadas comunicativas: a acessibilidade, a interatividade, a flexibilidade, a variação espaço-temporal, a participação grupal, etc.... Diante destas mudanças provocadas, quando se utilizam novas tecnologias em educação, também os educadores passam a necessitar de um processo de alfabetização digital, sempre com a pesquisa e a busca de novos conhecimentos, afim de sedimentar seu desejo de formar cidadãos críticos e conectados com o mundo.

Alguns autores nos mostram as mudanças de papéis e de status que o lugar do professor, tanto na educação regular como na especial, vem apresentando. Estas mudanças se tornam ainda mais necessárias para cuidar da heterogeneidade e diversidade que são apresentadas pelas pessoas com deficiências. Para cada área de deficiências, por exemplo no caso dos cegos, há recursos específicos, como os sintetizadores de voz, que podem modificar a ação pedagógica. Um cego, dotado de recursos como o DOSVOX ou uma impressora Braille, numa sala de aula, passa a um papel ativo de controle e busca de informações, e o professor deixará de ser a única fonte de informações para se tornar um facilitador, mais uma interface no processo ensino-aprendizagem. Aplicam-se aqui as novas tendências pedagógicas voltadas para o construtivismo e o construcionismo. Surgem os novos modelos pedagógicos que se apoiam nas tecnologias digitais interativas e multimediatizadas. Abrem-se as portas do ciberespaço para o surgimento e a multiplicação de redes.

Uma das redes, construídas e em construção, para a capacitação de professores está inserida no Projeto de Informática na Educação Especial, o Proinesp, da Secretaria de Educação Especial (SEESP) do Ministério da Educação (MEC), que tem segue os passos do Programa Nacional de Informática na Educação (Proinfo), da Secretaria de Educação à Distância (SEED), que vem abranger " a rede pública de ensino de 1º e 2º graus de todas as unidades da federação". O projeto da SEESP tem como proposta "contemplar escolas ligadas a instituições não-governamentais que atendem portadores de necessidades educativas especiais", que freqüentam escolas especializadas mantidas estas entidades, no momento ligadas às APAEs e Pestalozzi. Propõe-se o financiamento para a criação e estruturação de laboratórios de informática nestas escolas, "visando ao desenvolvimento dos alunos portadores de necessidades especiais e à formação continuada de professores". Refere-se, ainda, no Proinesp da necessidade da realização de cursos de formação de professores e de sua capacitação no uso pedagógico das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC).

Esta rede, ao nosso ver, poderá ser ampliada e fortalecida caso possa se expandir para além dos limites da escola especial. A sua utilização, tanto pelos alunos como pelos professores, será favorecedor de um crescimento criativo caso suas fronteiras seguirem as da Internet, ou seja, sem limitações apenas ao campo da Educação Especial, mas seguindo o princípio fundamental de utilização acessível, democratizada e com respeito às diferenças de cada sujeito ou coletividade. Deverão também ser também observados alguns elementos para uma política de inclusão e alfabetização tecnológica, segundo Silveira:

" . A aprendizagem é um processo permanente e personalizado.

. Navegar na rede é uma forma de obtenção de informações que pode gerar conhecimento.

. É direito das comunidades obter a orientação presencial de seus jovens e adultos para refletir criticamente e um espaço de saber flutuante, contínuo e permanentemente renovável.

. A aprendizagem em rede é cooperativa.

. Ao interagir, obtendo e gerando hipertextos, se está praticando e desenvolvendo uma inteligência coletiva.

. È fundamental reconhecer, enaltecer e disseminar pela rede os saberes desenvolvidos pela comunidade.

. Cada cidadã e cidadão deve buscar desenvolver na rede múltiplas competências.

. É preciso assegurar à população o conhecimento básico da informática e incentivar o progresso permanente da autoaprendizagem "15.

Portanto, a exploração e a descoberta favorecida pelas redes, técnicas ou virtuais, que se tornarem acessíveis, a exemplo de uma Internet, como espaço para a troca de conhecimentos em educação e exercício de cidadania, pode contribuir para a formação dos educandos com necessidades especiais, independentemente do grau ou tipo de sua deficiência ou impedimento, na dependência das políticas públicas voltadas a sua realização, da comunhão de esforços das instituições dedicadas à defesa dos Direitos Humanos e da participação ativa de todos na democratização dos meios tecnológicos de informação e comunicação.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Andrade, Jorge Márcio Pereira de. Novas Tecnologias, Comunicação e Educação Inclusiva. Curso de Capacitação de Recursos Humanos na área de Necessidades Especiais – Trabalhando com a Mídia promovido pela Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down. Recife, PE, de 23 a 28 de maio de 2000. Publicado no site: www.defnet.org.br , In Ágora Virtual.

Castells, Manuel. A Sociedade em Rede (A era da informação, economia, sociedade e cultura; v.1). São Paulo, SP: Paz e Terra, 1999, p.497-99.

Carvalho, Rosita Edler. A incorporação das tecnologias na educação especial para a construção do conhecimento. In Silva, Shirley & Vizim, Marli. Educação Especial: Múltiplas leituras e diferentes significados. Campinas, SP: Mercado de Letras/ Associação de Leitura do Brasil (ALB), 2001.

Franco, Marcelo Araujo. Ensaio sobre as tecnologias digitais da inteligência. Campinas, SP: Papirus, 1997, pág.107.

Guattari, Felix & Rolnik, Suely. Micropolítica- Cartografias do Desejo. Petropólis, RJ: Vozes, 1986, pág.123, 322

Scherer-Warren, Ilse. Cidadania sem fronteiras – ações coletivas na era da globalização. São Paulo, SP: Hucitec, 1999.

Scherer-Warren, Ilse. Redes e espaços virtuais – uma agenda para a pesquisa de ações coletivas na era da informação.In site:www.cfh.ufsc.br/~cso5421/REDESEV2.html). Consulta em 25/05/02.

Tecnologia ao Alcance de Todos – Oficina para a Inclusão Digital (Documento da Plenária Final), Brasília, DF: Revista Mais Brasil, Maio/Junho de 2001, Ano IV, n.º 38, págs. 41, 55

 

OUTROS SITES PARA CONSULTA:

Red de Integración Especial (Redespecial WEB)
www.redespecialWEB.org

III Congresso Iberoamericano de Informática na Educação Especial
www.ciiee2002.com.br

Rede SACI
www.saci.org.br

Red Especial Brasil
www.redespecial.org.br